Tentando traduzir Adrienne Rich, falecida há poucos dias.

Instantâneos de Uma Nora

1.

Você, uma vez a bela de Shreveport,
cabelos tingidos de hena, a pele como pêssego,
ainda manda fazer vestidos como os que se usavam então,
e toca um prelúdio de Chopin
chamado por Cortot: “Deliciosas reminiscências
flutuam como perfume pela memória”.

Sua mente agora, mofando como bolo de casamento,
pesada de experiências inúteis, pródiga
em suspeitas, rumores, fantasias,
desmoronando sob o fio
do mero fato. Na primavera da vida.

Inquieta, o olhar faiscante, sua filha
limpa as colheres de chá, cresce para outro lado.

2.

Dando com a cafeteira na pia
ela escuta o reproche dos anjos, e fita
o céu desgrenhado para além de jardins impecáveis.
Não faz mais de uma semana desde que disseram: Não tenha paciência.

Da próxima foi: Seja insaciável.
E depois: Salve-se. Aos demais, não poderá salvar.
Por vezes tem deixado a água da torneira lhe escaldar o braço,
um fósforo queimar-lhe a unha do dedão,

ou posto a mão sobre a chaleira
bem na lã do vapor. São provavelmente anjos
posto que já nada a magoa, excetuando
a areia de cada manhã indo de encontro aos olhos.

3.

Uma mulher pensante dorme com monstros.
O bico que a agarra, ela se torna. E a Natureza,
este ainda cômodo, destampado baú
cheio de tempora e mores
enche-se de tudo: …………… as flores de laranjeira cobertas de orvalho,
os contraceptivos, os terríveis seios
de Boadiceia sob orquídeas e cabeças chatas de raposa.

Duas belas mulheres, trancadas em discussão,
ambas orgulhosas, argutas, sutis, ouço que gritam
por sobre a maiólica e os cacos de vidro
como Fúrias encurraladas para longe de suas presas:
A discussão ad feminam, todos os velhos punhais
que enferrujaram em minhas costas, o seu adentro
ma semblable, ma soeur!

IV.

Conhecendo-se bem demais uma na outra
seus dons sem puro desfrute, mas espinhos
a agulha afiada contra uma ponta de escárnio…
Lendo enquanto espera
aquecer o ferro,
escrevendo, Minha vida – encostada pelos cantos
naquela despensa em Amherst enquanto as geleias fervem e empedram,
ou, com maior frequência,
de olhos fitos e embicada e obstinada como uma ave,
tirando poeira a todo o triquetraque da vida cotidiana.

5.

Dulce ridens, dulce loquens
ela depila as pernas até brilharem
como petrificadas presas de mamute.

6.

Quando canta Corina a seu alaúde
não são dela nem letra nem música;
somente os longos cabelos descaindo-se
sobre a bochecha, somente a canção
da seda contra os joelhos,
e mesmo estes
ajustam-se nos reflexos de um olho.

Empertigada, trêmula e insatisfeita, ante
uma porta destrancada, a jaula das jaulas,
diga-nos, sua ave, sua trágica máquina –
será isto fertilisante douleur? Esmagada
pelo amor, para ti a única reação natural,
estarás acirrada a ponto
de arrombar os segredos do cofre? a Natureza,
nora, mostrou-te enfim os livros de contabilidade
que seu próprio filho sempre ignorou?

7.

Ter neste incerto mundo alguma posição
inabalável é
da maior importância.
…………………………………….Assim escreveu
uma mulher, em parte boa e em parte audaz,
que lutou com o que não compreendia de todo.
Poucos homens a seu redor teriam feito mais,
portanto a rotularam puta, megera, engodo.

8.

Morreis todos aos quinze anos”, disse Diderot,
mudando-se metade em lenda, metade em convenção.
No entanto, olhos sonham equivocamente
por detrás de janelas fechadas, empastadas de vapor.
Deliciosamente, tudo o que poderíamos ter sido,
tudo o que fomos – fogo, lágrimas,
espírito, gosto, ambição martirizada –
agita-se como a lembrança do adultério recusado
o seio murcho e esvaziado de nossa “meia idade”.

9.

Não que se faça bem, mas
que se faça e ponto? Pois bem, pense
nas possibilidades! ou ignore-as para sempre.
Estes luxos da criança precoce,
a querida inválida do Tempo –
abdicaríamos, minhas caras, se nos fosse dado?
Nossa praga foi também nossa sinecura:
mero talento nos bastava –
brilho em rascunhos e fragmentos.

Não mais suspirem, minhas senhoras.
………………………………………………………..O tempo é macho
e em suas taças bebe ao belo.
Divertidas pelo galanteio, ouvimos
enquanto nos louvam as mediocridades,
indolência lida como abnegação,
desleixo lido como intuição refinada,
cada deslize perdoado, o único crime sendo
estampar uma sombra demasiado notável
ou sumariamente destruir o molde.

Para isso, a solitária,
o gás lacrimogênio, os estilhaços.
Poucas pleiteam este tipo de honra.

13.

……………………………………………………….Bom,
ela posterga sua chegada, que lhe deve parecer
tão pouco clemente quanto a própria história.
A mente cheia ao vento, vejo-a mergulhar
de seios e relanceando pelas correntezas,
tomando a luz sobre si,
pelo menos tão bela quanto qualquer menino
ou helicóptero,
…………………………………………..empertigada, chegando ainda,
suas finas hélices fazendo o ar recuar
mas sua carga
já nenhuma promessa:
entregue
palpável
nossa.

1958 – 1960

*

No original,

Snapshots of a Daughter-in-Law

1.

You, once a belle in Shreveport,
with henna-colored hair, skin like a peachbud,
still have your dresses copied from that time,
and plays a Chopin prelude
called by Cortot: “Delicious recollections
float like perfume through the memory”.

Your mind now, moldering like wedding-cake,
heavy with useless experience, rich
with suspicion, rumor, fantasy,
crumbling to pieces under the knife-edge
of mere fact. In the prime of your life.

Nervy, glowering, your daughter
wipes the teaspoons, grows another way.

2.

Banging the coffee pot into the sink
she hears the angels chiding, and looks out
past the raked gardens to the sloppy sky.
Only a week since They said: Have no patience.

The next time it was: Be insatiable.
Then: Save yourself; others you cannot save.
Sometimes she’s let the tapstream scald her arm,
a match burn to her thumbnail,

or held her hand above the kettle’s snout
right in the wooly steam. They are probably angels,
since nothing hurts her anymore, except
each morning’s grit blowing into her eyes.
3.

A thinking woman sleeps with monsters.
The beak that grips her, she becomes. And Nature,
that sprung-lidded, still commodious
steamer-trunk of tempora and mores
gets stuffed with it all: ………………….. the mildewed orange-flowers
the female pills, the terrible breasts
of Boadicea beneath flat foxes’ heads and orchids.

Two handsome women, gripped in argument,
each proud, subtle, I hear scream
across the cut glass and majolica
like Furies cornered from their prey:
The argument ad feminam, all the old knives
that have rusted in my back, I drive in yours,
ma semblable, ma soeur!

4.

Knowing themselves too well in one another:
their gifts no pure fruition, but a thorn,
the prick filed sharp against a hint of scorn…
Reading while waiting
for the iron to heat,
writing, My life had stood – a Loaded Gun –
in that Amherst pantry while the jellies boil and scum,
or, more often,
iron-eyed and beaked and purposed as a bird,
dusting everything on the whatnot every day of life.
5.

Dulce ridens, dulce loquens
she shaves her legs until they gleam
like petrified mammoth-tusk.

6.

When to her lute Corinna sings
neither words nor music are her own;
only the long hair dipping
over her cheek, only the song
of silk against her knees
and these
adjusted in the reflection of an eye.

Poised, trembling and unsatisfied, before
an unlocked door, that cage of cages,
tell us, you bird, you tragical machine –
is this fertilisante douleur? Pinned down
by love, for you the only natural action,
are you edged more keen
to prise the secrets of the vault? has Nature shown
her household books to you, daughter-in-law,
that her son never saw?
7.

To have in this uncertain world some stay
which cannot be undermined, is
of the utmost consequence.
………………………………………………Thus wrote
a woman, partly brave and partly good,
who fought with what she partly understood.
Few men about her would or could do more,
hence she was labeled harpy, shrew and whore.

8.

You all die at fifteen”, said Diderot,
and turn part legend, part convention.
Still, eyes inaccurately dream
behind closed windows blankening with steam.
Deliciously, all that we might have been,
all that we were – fire, tears,
wit, taste, martyred ambition –
stirs like the memory of refused adultery
the drained and flagging bosom of our middle years.

9.

Not that it is done well, but
that it is done at all? Yes, think
of the odds! or shrug them off forever.
This luxury of the precocious child,
Time’s precious chronic invalid, –
would we, darlings, resign it if we could?
Our blight has been our sinecure:
mere talent was enough for us –
glitter in fragments and rough drafts.

Sigh no more, ladies.
………………………………Time is male
and in his cups drinks to the fair.
Bemused by gallantry, we hear
our mediocrities over-praised,
indolence read as abnegation,
slattern thought styled intuition,
every lapse forgiven, our crime
only to cast too bold a shadow
or smash the mold straight off.

For that, solitary confinement,
tear gas, attrition shelling.
Few applications for that honor.

10.

……………………………………………………………..Well,
she’s long about her coming, who must be
more merciless to herself than history.
Her mind full to the wind, I see her plunge
breasted and glancing through the currents,
taking the light upon her
at least as beautiful as any boy
or helicopter,
…………………………………………………poised, still coming,
her fine blades making the air wince
but her cargo
no promise then:
delivered
palpable
ours.

1958 – 1960

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A Mulher na Punhalada, I

Omar Rayo, "Tranquilo", 1973

nunca uma partida tão festejada
tem um herbário. Trata o gato por vous
volte logo
para cúmulo o voo atrasou quarenta minutos
foi o suficiente
“você não me ama mais?”
não
……..é ponto pacífico
…………………………….pergunta que se faça
ele daria tudo para não argumentar
(“não sou seu amante, sou seu filho”)
solicitou-se uma pequena mancha azul
há pouco escavada das calças brancas
parecia crescer embora a vista
……………………….andasse lhe pregando
peças cada vez mais extravagantes
……………………………………….à medida que
num gesto um bocado difícil
de traduzir tentou arrancar com as unhas
um inexcusável pedaço de queijo
pegado ao tampo da mesa de mármore

, irremediavelmente emporcalhados

(fevereiro, 2012)

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I fancied myself a poet today.

 

Then, later by the water
tired, I reflected upon the splendid day just had
I cannot lie

I’m always seeing ambulance backwards

 

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3 “prosas” recentes

Paráfrase, I

Sabia citá-lo de cor, mas trocou a ordem de certas palavras, meteu pela frase uns advérbios untuosos, devolveu aos convivas um construto muito menos certeiro que o original, sabendo que a “vítima”, por mais comparecente que estivesse nesses erros e imprecisões, jamais o corrigiria em público, porque eram amigos, não de longa data, porque o primeiro quase não os tinha mais de longa data, bastante próximos porém que não quisessem por em risco sua amizade por tão pouco. Vendo, enfim, tantas suspeitas confirmadas a um só tempo – ele sorriu, não disse –, tomou a benção dos demais para – nada, propôs tópico novo e muito mais – ir ao banheiro, dizendo de si para si – “que interessante” – não posso ficar nem mais uma semana nessa cidade.

*

Homem, I

Comecemos com um homem, não mais que uma lauda, o curso de alguns breves parágrafos. Parece que o vejo pela primeira vez, muito embora certas facções na própria família não acreditem que isso – ver alguém pela primeira vez – seja de todo possível. Eu, que sou toda a dissidência de que dispõem, creio ser perfeitamente possível ver alguém pela primeira vez, fora dos domínios do carma, e me aborrece o fato de que esses meus parentes nunca tenham nada de mágico a dizer a meu respeito. Ora, terei me embotado tanto assim nos últimos meses? Limitam-se a olhar para mim com compaixão opaca, olhar que tento ao máximo reproduzir quando me oriento ao homem, do curso de uma lauda, essa pequena dianteira de palavras. Quero dizer-lhe que também não vejo nada em torno de si, mas não sei se me faço entender a essa distância.

*

Notas A Propósito de Um Romance de Formação Negativo, I

Ao primeiro lapso de atenção em sala de aula, a frase vem se pegar a ele tal e qual um eczema intratável. Desde então, e isso faz anos, vem envidando esforços de grande subterraneidade tão somente para “tornar-se o que é”. Tão somente? Não, não é tão somente quanto, a princípio, nos dão a entender. E, no entanto, distraímo-nos o tempo inteiro, sempre à mercê de incidentes de pouquíssima consequência, e nada nos habilita ao repouso, nunca. Haverá, em nossa própria história pessoal, um equivalente positivo ao período que antecede o saber socrático? Fossemos suficientemente murados, nada disso nos teria acontecido.

(janeiro e fevereiro, 2012)

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“Os cavalos… são esses os cavalos que me foram dados?”

3 radio(melo)dramas escritos em agosto do ano passado. São só sons, não só isso.

*

Luto

Narrador: Eu… eu devo ter colocado aqui… em algum lugar.

(como se alguém revirasse um baú)

Narrador: Onde…

(como se alguém revirasse um baú, escolhesse um objeto)

Narrador: Vejamos. (impostando) Qual é o som que um corpo faz ao cair oito andares?

(buzina)

Narrador: Não. Outra vez.

(apito)

Narrador: Onde… onde eu enfiei…

(aplausos, algo como um estádio lotado em ato de torcida)

Narrador: Não. Parem. Quer dizer… não é o caso.

(pausa)

Narrador: Longe de mim querer impor… qualquer coisa como ordem. Mas… é força… que nos coloquemos à altura do assunto. Ombreados com o assunto. Minimamente ombreados com o assunto.

(pausa)

Narrador: Vejamos. (impostando) Qual é o som que um corpo faz ao cair oito andares?

(quebram-se objetos quebráveis)

Narrador: Mas que vaudeville é esse? Imbecis. Alguém morreu. (pausa) Em narratologia, como se sabe, isso é vital.

(pausa)

Narrador: A questão é muito simples. Enquanto não encontrarmos o som, não haverá luto. O luto – a ternura – estão suspensos. Agora é a paga. Precisamos recompensá-los de alguma maneira. Tanto trabalho. Tanto mourejaram

(pausa)

Narrador: Sim, desculpem. Não posso me demorar também nas palavras. Elas estão coadjuvantes. O que se tem aqui, senhores, é uma inversão de papéis. O som, nesse caso, toma a dianteira. As palavras, o que estou dizendo, isso tudo não vai além de paisagem sonora. Nossa missão é o som, ou, mais precisamente, o som produzido por um corpo que despenca oito andares.

(pausa)

Narrador: Voluntariamente.

(pausa)

Narrador: Sim, mais especificamente… o baque. Que gênero de baque. Não o som da queda em si, não o som entre o terraço e a calçada. Isso seria absurdo, como perguntar o som de maio, ou…

(pausa)

Narrador: Imagino que seja como o vento. Amplificado, naturalmente. Acelerado pela queda. Temos vento?

(revirando)

Narrador: (para si mesmo) Algum vento deve ter sobrado daquele dia, quando… quando o carvalho caiu… na Kombi de cachorro-quente…

(revirando, furiosamente)

Narrador: Não é possível.

(desistindo, imperioso)

Narrador: Enfim, vamos ao próximo caco. O que sabemos do incidente, em termos concretos? Por exemplo, ela não acerta o laguinho artificial por poucos centímetros.

(pausa)

Narrador: A variável do lago implicaria em dificuldades totalmente diversas. Nesse sentido, tivemos alguma sorte. Por sinal, a sorte teve mais parte nisso do que intuímos a princípio. Ela não estatelou ninguém. Ela não estatelou em ninguém.

(pausa)

Narrador: A decência de não levar ninguém consigo. Mas também a sorte. A sorte, a decência. Bom, não raro caminham juntas.

(pausa)

Narrador: Já disse… não posso atentar também nas palavras. Serei parcial, é condição sine qua non para que não prestem atenção no que digo. Se os senhores estão prestando atenção no que digo, então não pescaram absolutamente a proposta. Vejamos. Alguém morreu. Isso não é uma digressão. Alguém se jogou do terraço de um prédio comercial numa manhã de maio, fez oito andares ao invés e aterrissou desgraciosamente na calçada, a poucos centímetros do laguinho artificial.

(pausa)

Narrador: Precisamos de um som conforme. Se não o som, pelo menos um substituto cabível. Trucar um duplo… respeitoso. Agora, onde…

(talvez música de picadeiro)

Narrador: Inferno.

(pausa)

Narrador: Se ao menos não houvesse tanta coisa em jogo. Quer dizer… a apropriação, apropriar-se é a única saída, o único expediente possível. Conto senhoras à saída do Supermercado. Ali. Mais à direita. Crianças a caminho do colégio. Homens de indumentos impossíveis; terno, paletó, gravata. Digamos, para um investidor da bolsa… um rapaz que acaba de entregar as chaves de seu utilitário a um manobrista de quepe azul… como é possível seguir… vivendo?

(pausa)

Narrador: É verdade. Coligi depoimentos. Uma ferradura de populares se formou instantaneamente. Uma mulher se voltou para mim, disse: “essa era única coisa que não podia acontecer”. Depois baixou o véu e saiu.

(pausa)

Narrador: Uma ferradura de populares se formou instantaneamente. Depois dispersa. A recolha levou quatro horas.

(pausa)

Narrador: Isso não é uma digressão..

(pausa)

Narrador: Também estou tentando seguir.

(novamente, os aplausos)

Narrador (sobre os aplausos): Chega! Assim se perde todo o senso de objetividade. Estou tentando, objetivamente, dar prosseguimento… não só à minha vida, mas à vida de todos vocês! Silêncio! (ainda os aplausos). Sim, ao que parece, a plateia emperrou.

(narrador faz força, como se estivesse puxando uma alavanca pesada. os aplausos param)

Narrador: Como eu ia dizendo, nenhum de vocês parece ser generoso o suficiente para perceber que tudo depende disso:

(fón)

Narrador: Não, disso:

(cornetinha)

Narrador: Inferno! Inferno! Que vaudeville é esse? Os cavalos… são esses os cavalos que me foram dados?

(cascos, galope)

Narrador: Não! Não é o caso. Não são… os elementos, os elementos cognoscíveis do caso. Ou… a variável do lago… a variável do passante… o som… a única coisa que não podia absolutamente acontecer…

(vento)

Narrador: Ah, havia vento, então.

(vento)

Narrador: Havia o vento. O vento no terraço. Assobiando entre os fones.

*

Preparações
(monólogo)

(Uma porta se abre para um espaço azado a ecos. Longo tempo, ouvimos passos [salto alto] estudadamente lentos, de alguma forma circulatórios [ora próximos, ora um pouco mais distantes]. A voz começa quando os passos estacam.)

Ela: Vejo que você trocou os móveis de lugar. Aprovado? A escrivaninha [ela empurra o móvel com algum esforço], a escrivaninha está mais perto da janela agora. Bom, estou morando aqui há – três…? e meio… quatro anos. Já era tempo de pôr a vista para trabalhar. Além do mais, assim eu me lembro de reabilitar o ar do quarto… [abre as janelas]. Já não cheira tanto a cigarro. Não? Parece. As garrafas, certamente estão escondidas em algum lugar; isso e as latas de atum. As mesmas… argolas de café por toda a parte. Bom, o que você esperava? Peônias no parapeito? Certamente, você não achava…? Não, o choque não foi tanto a ponto de me tornar uma dona de casa. Certas coisas não mudam. Poderiam mudar. Não mudam. O tom, inclusive. Não, não [rindo], você não disse isso. [pausa] Repara em mais alguma coisa? Está vendo aquele prédio grande ali na frente? Está em obras há quase um mês. É onde eu vou descansar os olhos. No teto, os obreiros andando de um lado para o outro. Assiduamente. Por que não caem? [corrigindo-se] “Como”, “como” não caem. Viu? Não foi dessa vez. Ainda consigo me antecipar. [pausa, cansada] Enfim, é lá que eu vou descansar os olhos, quando não consigo mais… me concentrar. Te vejo muito bem. Apesar de tudo. Obrigada. É o mínimo que se pode dizer. Por favor, não se faça de visita. Talvez eu prefira ser tratado como visita. Isso nunca te ocorreu? [pausa desconfortável] Como quiser. O que é isso? Ah, sim, estou preparando uma conferência sobre um poeta catalão que faleceu recentemente. Mas são as traduções que continuam segurando o apartamento. Bom, quanto a isso, perdi todo e qualquer escrúpulo. Mas… você tem escrito? [pausa] Não. [pausa] Sim. [pausa] Tenho? [pausa] Melhor não falarmos sobre isso. [pausa] O problema de deixar as janelas abertas é que, volta e meia, entram vespas. A moça do 301 tem uma espécie de herbário. Acho que atrai. É pior durante o verão. Mas, pensando bem, o que não é? [pausa] Lá se vai a vizinhança. [pausa, rindo nervosamente] É horrível, na verdade. Ouço tudo. O prédio inteiro. As brigas, as reconciliações. Nenhum movimento me escapa. [pausa] Eu tenho escrito. Mas não espero mais nada. [pausa, abre uma gaveta, furiosamente] Aqui. [a gaveta se fecha, dessa vez delicadamente] Já ouviu aquela do cara que se matou só para que publicassem seus diários? [pausa] Você disse, certa vez, algo sobre… a eliminação sistemática de todo e qualquer interlocutor possível. Lembra? Não. Sim. Vagamente. Bom, aqui estão. As baixas. Olha! [pausa] Não. Não tão amarga, Ana Maria. A-na-ma-ri-a. Sim, meu amigo, o que você sugere? Quais são as alternativas que você me oferece? [pausa] Quanto tempo você pretende ficar? [pancadinhas, como em uma porta] Mas como é fácil. Como continua fácil. Nenhuma capa, nenhum mistério. Você realmente é de uma transparência constrangedora. O que você quer dizer com isso? Exatamente o que disse. Você me convida para a sua casa, me leva para o mesmo quarto, me passeia pela mesma vista… você quer que eu dê por faltas. Você quer provar para si mesma que eu não me esqueci. Eu não vou dar pela falta de nada, não importa o quanto você tente. [pausa] Como você pode me acusar de uma coisa dessas? Na minha própria casa! Na minha própria… não, Victor, você é um convidado agora. Uma visita. Uma vespa [tenta matar um inseto, tenta matar um inseto longamente, cai]. Você não consegue. [indignada, levantando-se] Não? Sim, fora. Além do mais, está tarde e eu tenho muito trabalho a fazer. Anda! Bom, o que você está esperando? [pausa] Mais um pouco de vinho? Obrigado. É raro eu dormir antes das três. Te vejo muito bem, no entanto. Apesar da vista. Apesar das vozes. Apesar da insônia. Realmente, fala-se muito alto aqui. [pausa] Nessa cidade, quero dizer. [pausa] Se você tivesse me acompanhado, talvez estivesse trabalhando melhor. Sim, pelo menos, isso. É muito quieto lá, perde-se o costume de ouvir. Sim, eu me pego imaginando, de vez em quando. Como contrapeso. De toda forma, você precisa ser constantemente lembrada das suas próprias decisões. [pausa] Existe alguém fazendo isso por você… agora? [pausa] Sim. Não. Melhor não falarmos sobre isso. [pausa] Eu sou jovem, eu ainda sou jovem, por que não? [pausa] Você mandou consertar a estante. O abajur não era ali. Aquela cicatriz… ela ficava um pouco mais para cima, perto do cotovelo. Não? Não… tem mais. Sim, onde estão aquelas reproduções que eu te dei? [triunfante] Joguei fora. Fora! [fora, tentando achar as palavras] O adesivo… caducou. Caíram no chão. Nunca mais encontraram a parede de volta. [pausa] Eu tenho muito trabalho a fazer. Além do mais… [pausa] além do… [pausa, campainha].

*

O Sr. Barbieri

Ana Maria: Pequena fábula admonitória.

Barbieri: O quê?

Ana Maria: Um senhor basta. Entrado em anos. Aparência quebradiça.

Barbieri (lacrimejante): Outra vez?

Ana Maria: Avenida Nossa Senhora de Copacabana, cinco da tarde. Uma quarta-feira de maio. Tempo presente.

Barbieri (mais lacrimejante): Não, por favor… eu não consigo…!

Ana Maria: Hoje, como sempre, as funções protagonísticas de nosso espetáculo serão assumidas pelo Senhor Gian Maria Barbieri. [pausa] Sr. Barbieri? Sr. Barbieri, o senhor ainda está conosco?

Barbieri: Onde mais, diabos?

Ana Maria: Pois então…

(Barbieri se levanta com dificuldade, apaga o cigarro, suspira)

Ana Maria: Vamos lá.

[pequena pausa]

Barbieri: Pudera. Desconfio que os cavalheiros encarregados de redesenhar as linhas não põem os pés num coletivo desde o ginasial.

Ana Maria: Pensou o Sr. Barbieri, brandindo um punho fechado para o 156 que acabara de passar ao largo.

Barbieri: Ao largo, ao largo!

Ana Maria: Pensou o Sr. Barbieri, ciente de que se repetia. Afinal, essa não era a primeira vez.

Barbieri: Mas minha memória não é mais a mesma.

Ana Maria: Lembra-nos o Sr. Barbieri, enfiando dificultosamente pela multidão, rumo ao ponto de ônibus seguinte.

Barbieri: Talvez dessa vez.

Ana Maria: Pensou o Sr. Barbieri, ao divisar, pelo hiato entre as costas de duas –

Barbieri: Normalistas?

Ana Maria (pigarreando, constrangida pelo termo): … sim, bom, lá estão elas. Mais adiante, o ponto de ônibus seguinte.

Barbieri: Não é uma miragem, então?

Ana Maria: Não.

Barbieri: Não?

Ana Maria: Não dessa vez, Sr. Barbieri.

Barbieri: Talvez dessa vez.

Ana Maria: Desejou o Sr. Barbieri, estugando o passo na intenção de ultrapassar as duas mocinhas supracitadas e, quem sabe, talvez, enquanto as ultrapassasse –

Barbieri (ligeiramente obsceno): Me ponham no meu devido lugar.

Ana Maria: Pensou o Sr. Barbieri, que era exatamente essa espécie de velho.

Barbieri: Talvez da próxima, ein?

Ana Maria: Berrou o Sr. Barbieri, entre amável e rapina, enquanto acenava para as moças supracitadas.

Barbieri: Velho bolina.

Ana Maria: Exatamente, Sr. Barbieri.

Barbieri (troça): Exatamente, Sr. Barbieri.

Ana Maria: Zomba o Sr. Barbieri, certamente num tom amigável, um tom amigável a despeito de si mesmo, cada vez mais acercado do ponto de ônibus seguinte.

Barbieri: Sim, exatamente essa espécie de velho… mas inofensivo. Em última instância. Um canicinho. Pele de girino, difunde… tudo que se passa aqui dentro. [breve pausa] Eu também teria nojo. Mas teria caridade.

Ana Maria: Meditou o Sr. Barbieri, ao chegar ao ponto de ônibus.

Barbieri: Onde as almas caridosas desse mundo?

Ana Maria: Meditou o Sr. Barbieri, ao chegar ao ponto de ônibus.

Barbieri: Onde as almas…

Ana Maria: Meditou o Sr. Barbieri…

Barbieri: … que se deixam bolinar?

Ana Maria: … ao chegar ao ponto de ônibus.

Barbieri: 156, 156…

Ana Maria: Balbuciou o Sr. Barbieri, analisando o mapa das novas linhas afixado ao ponto de ônibus.

Barbieri: Não para.

Ana Maria: Pensou o Sr. Barbieri, tentando extratar algum sentido daqueles rabiscos verdes, vermelhos e azuis que lhe haviam desenhado homens muito mais afortunados…

Barbieri: Não passa. Deve ser no próximo.

Ana Maria: Especulou com crescente amargura o Sr. Barbieri, enquanto abria uma brecha entre os transeuntes com o auxílio de sua bengala.

Barbieri: É fome?

Ana Maria: Perdão?

Barbieri: Cara feia pra mim é fome.

Ana Maria: Pensou o Sr. Barbieri, vivo como sempre.

Barbieri: Se me encostar um dedo, chamo o gendarme.

Ana Maria: Vivíssimo, o Sr. Barbieri.

Barbieri: Espero estar morto até as Olimpíadas.

Ana Maria: Sentenciou o Sr. Barbieri.

Barbieri: Devo ser muito velho.

Ana Maria: Especulou o Sr. Barbieri.

Barbieri: De todo modo, não tenho tempo pra finezas. Dou em quem eu quiser.

Ana Maria: O que me lembra.

Barbieri: Ana Maria. [pausa] Meu Deus, que criança repugnante.

Ana Maria: Ah, mas ela cresceu. Tornou-se uma mulher bonita, bem-sucedida. Uma escritora, imagine!

Barbieri: Você não escreve, você purga! Já vi coisa melhor em banheiro de Rodoviária.

Ana Maria: Sim, [ingênua] uma escritora.

Barbieri: … e ainda tem a pachorra de falar em…

Ana Maria: Ela sempre foi bonita, sua ruína. Só nunca havia alcançado sua própria beleza. Não até sair de casa.

Barbieri: Nunca.

Ana Maria: Pensou o Sr. Barbieri, dramaticamente equivocado.

Barbieri: Nada disso! Sua mãe, sua própria mãe me dizia chorando: “minha nenê, Gianni! olha minha nenê! Não lembra um pouco o Itamar Franco?”.

Ana Maria: Lembra-nos o Sr. Barbieri, enquanto enfia dificultosamente pela multidão.

Barbieri: Uma criança repugnante.

Ana Maria: Ao chegar ao ponto de ônibus seguinte.

Barbieri: Uma mulher amarga, intratável.

Ana Maria: Ao ver seu ônibus se aproximando.

Barbieri: Não! Socorro! Socorro! Não me faça subir!

Ana Maria: Pensou o Sr. Barbieri, ao subir calmamente num ônibus da linha 156, rumo à sua casa.

Barbieri: Deus, misericórdia!

Ana Maria: Confundiu-se o Sr. Barbieri.

Barbieri: Ana Maria! Ana Maria! Por favor…

Ana Maria: Calado. Essa é sua única função, agora; defender o que está no papel.

Barbieri: Vou chegar em casa, pelo menos?

Ana Maria: Da próxima.

Barbieri: E agora?

Ana Maria: Agora, o ar está… quase irrespirável. Esse calor opressivo que não trai estação nenhuma. Você está viscoso, cansado, as pernas prestes cedem sob o peso do próprio corpo. Mas ninguém vaga o assento.

Barbieri: Eles podem me ver, pelo menos?

Ana Maria: Ah, sim. Eles te veem, naturalmente. Mas, de alguma maneira – à minha – eles têm uma noção bastante exata do risco que correm em te ajudar. Há como uma cerca elétrica ao seu redor. Ninguém ousaria ir além.

Barbieri: Mas posso cair?

[pausa]

Barbieri: Posso cair?

[pausa bastante longa]

Ana Maria: Não.

(agosto e, a bem da verdade, algum setembro, 2011)

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A Voz ao Fernando

 

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Textualidade: Modos de Usar

 

 

Amanhã, no MAM.

 

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